— Mas não foi agora.
Olhei para a casa.
Para a janela.
Para o telhado.
— Foram anos.
O advogado deu um passo leve para frente.
— Senhora Elisa, precisamos registrar a decisão.
Minha irmã virou rápido.
— Que decisão?
Ele não respondeu.
Esperou por mim.
Minha mãe segurou meu braço.
Dessa vez, ela me tocou.
— Não faz isso.
A mão dela estava fria.
— Essa é a sua casa também.
Eu olhei para a mão dela no meu braço.
Depois para o rosto dela.
— Não.
Tirei a mão devagar.
— Essa nunca foi minha casa.
Ela franziu a testa.
— Eu só paguei por ela.
Silêncio.
A frase demorou a cair.
Minha irmã respirou fundo.
— Então o que você vai fazer?
Eu olhei para o advogado.
— Pode registrar.
Ele abriu a pasta.
Pronto.
— A casa será colocada à venda?
Minha mãe prendeu a respiração.
Minha irmã também.
Eu balancei a cabeça.
— Não.
Eles esperaram.
— Ela vai ser doada.
Minha irmã deu um passo para trás.
— O quê?
Minha mãe arregalou os olhos.
— Doada?
— Para quem? — minha irmã perguntou, quase sem voz.
Eu respondi sem pressa.
— Para uma instituição que acolhe mulheres com filhos.
Silêncio.
Pesado.
Completo.
Minha mãe levou a mão ao peito.
— Você enlouqueceu?
— Não.
— Essa casa é da família!
— Não.
Minha voz continuou calma.
— Essa casa é de quem não tem onde ficar.
Minha irmã começou a falar mais alto.
— E a gente? Vai para onde?
Eu olhei para ela.
— Para o mesmo lugar que você queria que eu fosse.