Depois outro.
E mais um.
Três carros.
Vidros escuros.
Silenciosos.
Minha irmã franziu a testa.
— O que é isso?
As portas abriram.
Dois homens de terno saíram.
E uma mulher, com uma pasta na mão.
Eu não me mexi.
Só olhei.
— Chegaram — eu disse.
Minha mãe virou para mim.
— Quem?
Um dos homens se aproximou.
— Senhora Elisa Moreira?
Levantei o olhar.
— Sou eu.
Ele assentiu.
— Doutor Henrique Lemos, advogado.
Minha irmã deu um passo para trás.
Minha mãe apertou o copo na mão.
— Advogado?
O homem abriu a pasta.
— Estamos aqui para tratar da propriedade localizada neste endereço.
Minha irmã soltou uma risada nervosa.
— Propriedade? Essa casa é da família.
Ele não levantou a voz.
— Não exatamente.
Silêncio.
Pesado.
Minha mãe apoiou a mão na parede.
— Como assim?
Ele virou um documento.
— Esta casa está registrada no nome de Elisa Moreira.
Apontou para mim.
Minha irmã piscou várias vezes.
— Isso é absurdo.
— A gente mora aqui.
— Minha mãe mora aqui.
O advogado continuou, calmo:
— A senhora reside como ocupante autorizada.
— Mas a proprietária legal…
olhou para mim novamente
— é ela.
Minhas duas mãos ainda seguravam a alça da mala.
Elas olharam para mim de um jeito diferente.
Não como antes.
Não como alguém pedindo ajuda.
Mas como alguém que podia tirar tudo.
Minha mãe falou baixo:
— Elisa… o que é isso?
Eu abri o zíper do casaco.
Por baixo, a roupa não era cara.
Mas era limpa.
Arrumada.
Controlada.
— É a verdade — eu disse.
Minha irmã balançou a cabeça.
— Você disse que não tinha nada.
— Eu disse o que precisava dizer.
Olhei para as duas.
Sem levantar a voz.
— Para ver quem vocês seriam…
— quando eu não tivesse mais nada para dar.
O silêncio voltou.
Mais pesado ainda.
O advogado ajeitou os papéis.
— Senhora Elisa, precisamos confirmar sua decisão sobre o imóvel.
Minha irmã avançou:
— Que decisão?
Minha mãe respirou fundo.
— Entra, Elisa.
— A gente conversa.
Eu olhei para a porta.
A mesma que ela ia fechar na minha cara segundos antes.
— Agora você quer conversar?
Ela engoliu seco.
— Você é minha filha.
Eu fiquei olhando para ela.
Por alguns segundos.
Sem pressa.
Sem pressa nenhuma.
E foi exatamente nesse momento…
que eu decidi o que faria com aquela casa.
PARTE 2
Eu fiquei alguns segundos olhando para a porta.
A mesma porta que, minutos antes, minha mãe ia fechar na minha cara.
O mesmo chão que eu tinha pago.
As mesmas paredes que eu ajudei a levantar sem nunca encostar um tijolo.
Minha irmã ainda estava ali, com os braços meio cruzados, meio caídos, como quem tenta manter alguma autoridade que já não existe.
O advogado esperava.
Sem pressa.
Como alguém acostumado a ver famílias se desfazendo em silêncio.
— A senhora confirma sua decisão? — ele perguntou.
Eu não respondi na hora.
Olhei para minha mãe.
Ela parecia menor.
Não fisicamente.
Mas na forma como segurava o copo agora, com a mão tremendo um pouco.
— Elisa… — ela disse, mais baixo — entra. A gente resolve isso com calma.
“Resolve”.
A palavra ficou no ar.
Eu já tinha ouvido aquela palavra muitas vezes.
Sempre que alguma conta chegava.
Sempre que alguma urgência aparecia.